COISAS-E-LOISAS
Domingo, 27 de Maio de 2012
Quinta-feira, 17 de Maio de 2012
CARTA DE AMOR DE FERNANDO PESSOA A OFELINHA
“9/10/1929
Terrível Bebé:
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de
si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e
não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que
eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta
de mim, e também por que é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao
princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um
beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos
que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a
ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e
tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e por que é que a Ofelinha
gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com
ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa
ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre,
e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé
fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba
aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é
escrito por mim.
Fernando”
In “Cartas de Amor de Grandes Homens”
Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
AGORA É TARDE
indiferentes desde o começo?
Por que não te ignorei
nem tu me estranhaste?
Agora é tarde, a tua voz
é o livro aberto onde eu peco
sem jamais o querer fechar.
Se vestíssemos
o rosto de uma lembrança distante
desabraçada no lixo…
Se zombássemos
da temperatura das línguas
e rasgássemos o estandarte do gozo…
Mas não,
é o prazer que nos tortura
a alma de alegria e nos liberta
de enfados e remansos medonhos.
Mas não,
somos a sensatez derrotada
pela nossa própria ternura, a festejar
com doçura um triunfo irrecusável.
Nilson Barcelli - http://nimbypolis.blogspot.pt/
Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
A CIÊNCIA TEM DE VERGAR-SE À POESIA
"- Ah, o amor! O que é o amor? Ninguém compreende. Neste ponto, a ciência tem de vergar-se à poesia.
in Breve história dos tractores em ucraniano
Marina Lewycka
in Breve história dos tractores em ucraniano
Marina Lewycka
Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
BEIJO
Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!
Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!
Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!
Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!
Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor!
Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...
Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!
Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!
Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.
As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três!
João de Deus, in 'Campo de Flores'
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!
Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!
Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!
Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!
Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor!
Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...
Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!
Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!
Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.
As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três!
João de Deus, in 'Campo de Flores'
Sábado, 31 de Março de 2012
As vozes em livro, uma edição Pastelaria Studios: a capa e a sinopse
Sinopse: Esta obra reúne uma parte dos muitos textos redigidos por alunos dos 2º e 3º Ciclos da Escola Básica André de Resende, em Évora, ao longo do ano letivo 2011/12. É uma resposta ao desafio lançado pela Pastelaria Studios: um convite à escrita, um convite aceite por crianças e jovens que gostam de escrever.
São vozes, as vozes das vivências e experiências, expectativas e interrogações, dos costumes e tradições, amores e paixões, as vozes de quem escreve o que sente, o que vive.
partilhado do blogue: Vozes de lá e de cá
Quarta-feira, 28 de Março de 2012
COMO SE DESENHAM OS PERFUMES E O CALOR DA PRIMAVERA?
Recordo o dia em que Ana, a colega do ensino especial que me apoia na sala, referiu o facto de em todas as salas por onde passava já ser outono menos na minha.
Em verdade, só não era outono ainda na sala embora já o fosse oficialmente no calendário, porque ninguém ainda o tinha trazido para dentro da sala…
Às vezes tenho alguma dificuldade em que os outros entendam que há rotinas perfeitamente desnecessárias. Por que razão há-de ser outono dentro da sala se ainda ninguém sentiu o outono? Ele haveria de chegar sem pressas e sempre na altura certa. Aquela em que todos desejássemos que assim fosse.
Já com a primavera foi diferente. Acho mesmo que esta nunca saiu da sala. Talvez porque também nunca chegou a desinstalar-se verdadeiramente no exterior. Por todos os cantos do jardim da escola houve todo o inverno, cheiros e flores de primavera. O céu de inverno esteve sempre azul e o sol quase nunca conseguiu esconder-se por entre as nuvens.
E foi numa destas manhãs, embora no calendário ainda não fosse primavera. Que a Rita durante o recreio se pôs a explicar aos colegas porque já tinha esta chegado!
Apontando os rebentos novos dos arbustos do jardim, dizia aos amigos que tal só acontecia por ser primavera. O grupo ouvia-a com atenção e descobria no muro pequenos bichinhos que pareciam também felizes por ser primavera!
Foi então que os meninos pediram para desenhar a primavera. E queriam fazê-lo ali mesmo no jardim…
Eu limitei-me a observá-los e a ouvir o que diziam. Se há coisa que aprendi com os meninos é que quando conversam só devo falar quando a conversa é mesmo comigo! É que aprendo tantas coisas quando estou só a ouvi-los!
A Margarida teve algumas dificuldades em segurar a folha onde desenhava, foi divertido vê-la correr atrás da folha que o vento resolveu “pôr a voar”! Descobrindo assim a leveza da folha e a intensidade do vento!
- Tens de segurá-la com força! Sugeriu o Afonso.
Uma formiguinha resolveu fazer cócegas no desenho do Rodrigo e por momentos toda a turma seguiu os seus passos até que saiu da folha e lá foi à sua vida.
Estava entretida a olhá-los, quando ouvi o Edgar perguntar:
- Como se desenham os perfumes e o calor da primavera?
Rapidamente, quase sem se fazer esperar a Raquel deu a resposta.
- Desenhas flores no ar e pintas o sol com muita cor de laranja!
Não tive a mínima dúvida, a primavera tinha mesmo chegado!
Teresa
http://buziodovento.blogspot.pt
Terça-feira, 20 de Março de 2012
NÃO POSSO ADIAR O AMOR
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
António Ramos Rosa
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
António Ramos Rosa
Sábado, 17 de Março de 2012
TUDO O QUE TENHO
Quero entrar num estado de cúpula,
num estado em que tudo em mim se cerre ao incómodo
e apenas aquilo que vivo permaneça em vida, vivo.
Carregar aos ombros apenas a qualidade
do mundano que fazíamos, ou as rotinas que de sã doença nos marcavam.
Quero seleccionar apenas aquilo que me afaga o estômago
e lançar a público o enjoo que tudo o resto me dava,
para evitar que a tal me não voltem a sujeitar.
Ainda que o mereça, não quero.
Sinto que a verdade é, agora, mais do que nunca,
apenas uma palavra, desprovida de significado, de sentido.
Não há verdade quando o meu sentido é agora a tua mão,
a mesma que ainda pego com cautelas mas que deixo conduzir-me.
E não foi sempre assim?
Tu uma direcção, um sentido no que eu era de desgoverno?
Tu uma ideia clara a brotar de um problema irresolúvel?
Em ti a retórica absolutamente direccionada ao sentimento,
fugidia ao estudo, à perseverança dos livros, apenas naturalidade.
E como eu o tentei.
Estudei os mestres, os clássicos, os que mobilizavam pequenas
multidões a ouvir o impronunciável sem me dar conta
que descendia de uma escola cujo mestre eras tu.
Eu tive o mestre, não aquele que mobiliza multidões acordeiradas
mas o genuíno, o mestre que mobiliza a pequena multidão
abnegada que carrego no meu corpo, um dia frágil,
mas agora um torpor inaudível por se saber assim educado.
Tudo o que tenho trago comigo, e nada mais me falta,
saber apenas que tudo o que tenho trazes contigo.
Vicente Fino (http://umexilado.blogspot.pt)
num estado em que tudo em mim se cerre ao incómodo
e apenas aquilo que vivo permaneça em vida, vivo.
Carregar aos ombros apenas a qualidade
do mundano que fazíamos, ou as rotinas que de sã doença nos marcavam.
Quero seleccionar apenas aquilo que me afaga o estômago
e lançar a público o enjoo que tudo o resto me dava,
para evitar que a tal me não voltem a sujeitar.
Ainda que o mereça, não quero.
Sinto que a verdade é, agora, mais do que nunca,
apenas uma palavra, desprovida de significado, de sentido.
Não há verdade quando o meu sentido é agora a tua mão,
a mesma que ainda pego com cautelas mas que deixo conduzir-me.
E não foi sempre assim?
Tu uma direcção, um sentido no que eu era de desgoverno?
Tu uma ideia clara a brotar de um problema irresolúvel?
Em ti a retórica absolutamente direccionada ao sentimento,
fugidia ao estudo, à perseverança dos livros, apenas naturalidade.
E como eu o tentei.
Estudei os mestres, os clássicos, os que mobilizavam pequenas
multidões a ouvir o impronunciável sem me dar conta
que descendia de uma escola cujo mestre eras tu.
Eu tive o mestre, não aquele que mobiliza multidões acordeiradas
mas o genuíno, o mestre que mobiliza a pequena multidão
abnegada que carrego no meu corpo, um dia frágil,
mas agora um torpor inaudível por se saber assim educado.
Tudo o que tenho trago comigo, e nada mais me falta,
saber apenas que tudo o que tenho trazes contigo.
Vicente Fino (http://umexilado.blogspot.pt)
Sexta-feira, 9 de Março de 2012
LER É...
Visitando o blogue Búzio do Vento, avivaram-se as saudades dos meus meninos/alunos e das nossas aulas. Estavam eles no 4.º ano, quando alguns escreveram:
Ler é um clarão branco que dá luz à vida.
Daniela Geadas
Ler é um corredor de escrita que está na floresta. É ir para dentro do livro. Se gostarmos de ler, os livros dão-nos abraços fortes.
Margarida Cordeiro
Ler é uma aventura a tocar nos meus olhos.
Raquel Copeto
Ler é um beijo profundo nas palavras.
Andreia Pardal
Ler é um assopro do coração, o oceano a nascer, uma flor a sonhar.
Teresa Soares
Ler é sentir e imaginar como se fossemos as próprias personagens.
Daniel Marques
Ler é estar a voar numa nuvem cheia de fantasia, alegria e poesia.
Débora Gomes
Ler são gaivotas ao pôr do sol (palavras), por cima do mar brilhante.
Ana Catarina
Ler é entrar num mundo de fantasia e poder sonhar com o que estou a ler.
Marisa Passos
Ler é partilhar com os nossos olhos aquilo que os livros dizem, aquilo que as palavras dizem.
Helena Flor da Rosa
Para mim ler é navegar… navegar… no mar, na terra ou no ar e dançar sem nunca mais parar.
Daniela Alvarinho
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