Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

CARTA DE AMOR DE FERNANDO PESSOA A OFELINHA


“9/10/1929

Terrível Bebé:

Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também por que é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e por que é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim.

                                                                                                                                         Fernando”

In “Cartas de Amor de Grandes Homens”

Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

AGORA É TARDE



 Por que não fomos
indiferentes desde o começo?
Por que não te ignorei
nem tu me estranhaste?

Agora é tarde, a tua voz
é o livro aberto onde eu peco
sem jamais o querer fechar.

Se vestíssemos
o rosto de uma lembrança distante
desabraçada no lixo…

Se zombássemos
da temperatura das línguas
e rasgássemos o estandarte do gozo…

Mas não,
é o prazer que nos tortura
a alma de alegria e nos liberta
de enfados e remansos medonhos.

Mas não,
somos a sensatez derrotada
pela nossa própria ternura, a festejar
com doçura um triunfo irrecusável.

Nilson Barcelli  - http://nimbypolis.blogspot.pt/


Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

A CIÊNCIA TEM DE VERGAR-SE À POESIA

"- Ah, o amor! O que é o amor? Ninguém compreende. Neste ponto, a ciência tem de vergar-se à poesia.

 in Breve história dos tractores em ucraniano
Marina Lewycka

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

BEIJO


Beijo na face 
Pede-se e dá-se: 
             Dá? 
Que custa um beijo? 
Não tenha pejo: 
             Vá! 

Um beijo é culpa, 
Que se desculpa: 
             Dá? 
A borboleta 
Beija a violeta: 
             Vá! 

Um beijo é graça, 
Que a mais não passa: 
             Dá? 
Teme que a tente? 
É inocente... 
             Vá! 

Guardo segredo, 
Não tenha medo... 
             Vê? 
Dê-me um beijinho, 
Dê de mansinho, 
             Dê! 


Como ele é doce! 
Como ele trouxe, 
             Flor, 
Paz a meu seio! 
Saciar-me veio, 
             Amor! 

Saciar-me? louco... 
Um é tão pouco, 
             Flor! 
Deixa, concede 
Que eu mate a sede, 
             Amor! 

Talvez te leve 
O vento em breve, 
             Flor! 
A vida foge, 
A vida é hoje, 
             Amor! 

Guardo segredo, 
Não tenhas medo 
             Pois! 
Um mais na face, 
E a mais não passe! 
             Dois... 


Oh! dois? piedade! 
Coisas tão boas... 
             Vês? 
Quantas pessoas 
Tem a Trindade? 
             Três! 

Três é a conta 
Certinho, e justa... 
             Vês? 
E que te custa? 
Não sejas tonta! 
             Três! 

Três, sim: não cuides 
Que te desgraças: 
             Vês? 
Três são as Graças, 
Três as Virtudes; 
             Três. 

As folhas santas 
Que o lírio fecham, 
             Vês? 
E não o deixam 
Manchar, são... quantas? 
             Três! 

João de Deus, in 'Campo de Flores'

Sábado, 31 de Março de 2012

As vozes em livro, uma edição Pastelaria Studios: a capa e a sinopse


Sinopse: Esta obra reúne uma parte dos muitos textos redigidos por alunos dos 2º e 3º Ciclos da Escola Básica André de Resende, em Évora, ao longo do ano letivo 2011/12. É uma resposta ao desafio lançado pela Pastelaria Studios: um convite à escrita, um convite aceite por crianças e jovens que gostam de escrever.
São vozes, as vozes das vivências e experiências, expectativas e interrogações, dos costumes e tradições, amores e paixões, as vozes de quem escreve o que sente, o que vive.

 partilhado do blogue: Vozes de lá e de cá

Quarta-feira, 28 de Março de 2012

COMO SE DESENHAM OS PERFUMES E O CALOR DA PRIMAVERA?


Recordo o dia em que Ana, a colega do ensino especial que me apoia na sala, referiu o facto de em todas as salas por onde passava já ser outono menos na minha.

Em verdade, só não era outono ainda na sala embora já o fosse oficialmente no calendário, porque ninguém ainda o tinha trazido para dentro da sala…

Às vezes tenho alguma dificuldade em que os outros entendam que há rotinas perfeitamente desnecessárias. Por que razão há-de ser outono dentro da sala se ainda ninguém sentiu o outono? Ele haveria de chegar sem pressas e sempre na altura certa. Aquela em que todos desejássemos que assim fosse.

Já com a primavera foi diferente. Acho mesmo que esta nunca saiu da sala. Talvez porque também nunca chegou a desinstalar-se verdadeiramente no exterior. Por todos os cantos do jardim da escola houve todo o inverno, cheiros e flores de primavera. O céu de inverno esteve sempre azul e o sol quase nunca conseguiu esconder-se por entre as nuvens.

E foi numa destas manhãs, embora no calendário ainda não fosse primavera. Que a Rita durante o recreio se pôs a explicar aos colegas porque já tinha esta chegado!

Apontando os rebentos novos dos arbustos do jardim, dizia aos amigos que tal só acontecia por ser primavera. O grupo ouvia-a com atenção e descobria no muro pequenos bichinhos que pareciam também felizes por ser primavera!
Foi então que os meninos pediram para desenhar a primavera. E queriam fazê-lo ali mesmo no jardim…


Eu limitei-me a observá-los e a ouvir o que diziam. Se há coisa que aprendi com os meninos é que quando conversam só devo falar quando a conversa é mesmo comigo! É que aprendo tantas coisas quando estou só a ouvi-los!

A Margarida teve algumas dificuldades em segurar a folha onde desenhava, foi divertido vê-la correr atrás da folha que o vento resolveu “pôr a voar”! Descobrindo assim a leveza da folha e a intensidade do vento!

- Tens de segurá-la com força! Sugeriu o Afonso.

Uma formiguinha resolveu fazer cócegas no desenho do Rodrigo e por momentos toda a turma seguiu os seus passos até que saiu da folha e lá foi à sua vida.

Estava entretida a olhá-los, quando ouvi o Edgar perguntar:

- Como se desenham os perfumes e o calor da primavera?

Rapidamente, quase sem se fazer esperar a Raquel deu a resposta.

- Desenhas flores no ar e pintas o sol com muita cor de laranja!

Não tive a mínima dúvida, a primavera tinha mesmo chegado!


Teresa
 http://buziodovento.blogspot.pt

Terça-feira, 20 de Março de 2012

NÃO POSSO ADIAR O AMOR

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

Sábado, 17 de Março de 2012

TUDO O QUE TENHO

Quero entrar num estado de cúpula,
num estado em que tudo em mim se cerre ao incómodo
e apenas aquilo que vivo permaneça em vida, vivo.
Carregar aos ombros apenas a qualidade
do mundano que fazíamos, ou as rotinas que de sã doença nos marcavam.
Quero seleccionar apenas aquilo que me afaga o estômago
e lançar a público o enjoo que tudo o resto me dava,
para evitar que a tal me não voltem a sujeitar.
Ainda que o mereça, não quero.
Sinto que a verdade é, agora, mais do que nunca,
apenas uma palavra, desprovida de significado, de sentido.
Não há verdade quando o meu sentido é agora a tua mão,
a mesma que ainda pego com cautelas mas que deixo conduzir-me.
E não foi sempre assim?
Tu uma direcção, um sentido no que eu era de desgoverno?
Tu uma ideia clara a brotar de um problema irresolúvel?
Em ti a retórica absolutamente direccionada ao sentimento,
fugidia ao estudo, à perseverança dos livros, apenas naturalidade.
E como eu o tentei.
Estudei os mestres, os clássicos, os que mobilizavam pequenas
multidões a ouvir o impronunciável sem me dar conta
que descendia de uma escola cujo mestre eras tu.
Eu tive o mestre, não aquele que mobiliza multidões acordeiradas
mas o genuíno, o mestre que mobiliza a pequena multidão
abnegada que carrego no meu corpo, um dia frágil,
mas agora um torpor inaudível por se saber assim educado.
Tudo o que tenho trago comigo, e nada mais me falta,
saber apenas que tudo o que tenho trazes contigo.

Vicente Fino (http://umexilado.blogspot.pt)

Sexta-feira, 9 de Março de 2012

LER É...


Visitando o blogue Búzio do Vento, avivaram-se as saudades dos meus meninos/alunos e das nossas aulas. Estavam eles no 4.º ano, quando alguns escreveram:


Ler é um clarão branco que dá luz à vida.
Daniela Geadas

Ler é um corredor de escrita que está na floresta. É ir para dentro do livro. Se gostarmos de ler, os livros dão-nos abraços fortes.
Margarida Cordeiro

Ler é uma aventura a tocar nos meus olhos. 
Raquel Copeto

Ler é um beijo profundo nas palavras.
Andreia Pardal

Ler é um assopro do coração, o oceano a nascer, uma flor a sonhar. 
Teresa Soares

Ler é sentir e imaginar como se fossemos as próprias personagens.
Daniel Marques

Ler é estar a voar numa nuvem cheia de fantasia, alegria e poesia. 
Débora Gomes

Ler são gaivotas ao pôr do sol (palavras), por cima do mar brilhante.
Ana Catarina

Ler é entrar num mundo de fantasia e poder sonhar com o que estou a ler. 
Marisa Passos

Ler é partilhar com os nossos olhos aquilo que os livros dizem, aquilo que as palavras dizem. 
Helena Flor da Rosa

Para mim ler é navegar… navegar… no mar, na terra ou no ar e dançar sem nunca mais parar. 
Daniela Alvarinho